segunda-feira, 5 de abril de 2010

Marília 81 anos

Lutas e glórias marcaram o progresso da cidade


Marília foi palco de grandes acontecimentos que entraram para a história local e até mesmo do Brasil

Por Alexandre Lourenção

E disse o poeta: “Lia ia ao Mar e o Mar não lhe ouvia. Lia então resolveu voar e o Mar passou a lhe amar e todos os dias Lia descrevia o amor do Mar. Lia e Mar decidiram unir as suas forças e desabrocharam-se em forma de uma moça de louça, trajada de cores brancas e vermelhas, delicadas e charmosas como o voar das abelhas, como se juntas fossem uma jovem aérea companhia disposta a vencer o existente e persistente ar de nostalgia oferecendo até mesmo da Sicília no elegante, charmoso, sincero e cheio de simpatia corpo vibrante da moça de louça de nome MARÍLIA!” . Este foi um trecho do romance “Marília de Dirceu”, de Thomaz Antonio Gonzaga, que inspirou Bento de Abreu Sampaio Vidal a escolher o nome da nossa cidade.
Vidal achou feios os nomes “Marathona”, “Macau” e “Mogúncia”
sugeridos pelo amigo Adolfo Pinto, que era chefe da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Pinto explicava que o nome deveria ter origem com a letra “M”, respeitando a seqüência alfabética das estações ferroviárias que eram inauguradas no Estado. Durante uma viagem a Europa, Vidal procurou alguns livros na biblioteca do navio e leu o famoso poema de TAG.
Sobre a história da cidade, contam os livros “Marília, no Tempo e na Saudade”, de Rosalina Tanuri e “Marília, sua Terra, sua Gente”, de Paulo Corrêa de Lara (já falecido) que no início do século XIX, a região oeste (entre os rios do Peixe e Feio) do Estado de São Paulo era habitada em quase sua totalidade, por índios Coroados, o que ocasionou em vários conflitos com o homem branco, durantes as primeiras expedições. Em 1923, Antonio Pereira da Silva e seu filho, José Pereira da Silva (o Pereirinha) adquiriram 53 dos 600 alqueires de terras da fazenda Rio do Peixe ou dos “Piedade” que pertenciam ao Major Eleziário de Camargo Barbosa. Essas terras passaram a ter no nome de “Alto Cafezal” e delimitavam-se ao Norte pelo espigão Peixe-Feio, com a área da fazenda Guataporanga.
Cincinato Braga, um famoso advogado do Rio de Janeiro e que tinha amizade com o major, soube da venda dos promissores lotes por Pereirinha e comprou uma faixa de 21 km de terras (a Fazenda Cincinatina) que passou a ser administradas por Antonio Pereira da Silva. A partir daí, as terras do Espigão começaram a ser valorizadas, chamando a atenção dos poderosos da época, como o deputado estadual Bento de Abreu Sampaio Vidal, que também adquiriu grande parte das terras (que formam hoje a região leste da cidade). O loteamento ficava em frente às terras do Alto Cafezal e, para isso, Bento contratou o engenheiro Durval de Menezes para formar o empreendimento. Mais tarde, Menezes se tornaria o primeiro prefeito (por indicação) de Marília. Segundo contam os pioneiros, as ruas que cruzam a avenida Sampaio Vidal não são alinhadas por causa de uma suposta disputa de poder entre Pereirinha e Bento de Abreu.
A cidade assistiu ao seu primeiro grande acontecimento, com a chegada do primeiro trem, no dia 1º de Maio de 1928, às 11h19. O jornal Correio de Marília, que foi o primeiro veículo de comunicação impresso da cidade, vinha divulgando com efervescência em suas edições históricas o tal fato, o que aumentava ainda mais a expectativa da população na chegada do tão esperado dia. Quando a locomotiva com 13 vagões da Companhia Paulista entrou apitando na plataforma, uma bateria de rojões dava as boas vindas aos visitantes, em meio a bandas tocando o Hino Nacional e aos automóveis que ali estavam, buzinando e fazendo festa junto as crianças e suas bandeirinhas.
Alguns anos depois, chegaram os migrantes nordestinos e imigrantes portugueses, espanhóis, italianos, japoneses, sírios e libaneses. Todos com o sonho de construir uma cidade bela e viver dignamente com suas famílias.
Com o surgimento da energia elétrica, em 1930, vieram a instalação do primeiro poste e das primeiras fábricas da cidade. Tal descoberta fez nascer o rádio, num período difícil da Revolução Constitucionalista, onde o Governador do Estado de São Paulo, Altino Arantes, organizava a cadeia de emissoras paulistas na divulgação da batalha. “As pessoas se aglomeravam para ouvir o único rádio da cidade, conclamando o povo para a luta”, conta a professora Rosalina Tanuri, que também é membro da Comissão de Registros Históricos da Câmara Municipal local. Segundo ela, os pioneiros relatavam que a grande maioria da população era analfabeta e a fácil aceitação do rádio criou um vínculo forte entre o indivíduo e a coletividade porque, quem não lia, pelo menos ouvia. E isto passou a influenciar o comportamento das pessoas porque o rádio vendia produtos, ditava moda, levava a população a participar de tudo. A Febre era tanta que alfaiates, costureiras, tintureiros entre outros, trabalhavam todos com o rádio ligado durante o expediente. As vozes de Orlando Silva, Silvio Caldas, Vicente Celestino e Emilinha Borba, entre tantas estrelas, eram lideres de audiência, assim como as novelas, as piadas e os programas de calouros e sertanejos. Os locutores, com suas potentes vozes, anunciavam os comerciais, liam crônicas literárias e faziam transmissões esportivas.
A Estação Rodoviária de Marília foi inaugurada em 1938, quando a cidade tinha apenas nove anos de emancipação, sendo a primeira Rodoviária do Brasil, na época a cidade concentrava grande parte do transporte rodoviário do estado.
Ela se localizava na antiga Avenida Barão de Mauá (hoje Av. Tancredo Neves), próximo a Galeria Atenas.
No final da década de 40, entre os maiores times do Estado, estava o São Bento de Marília. O time era referência em São Paulo e conquistou importantes troféus em sua tragetória. Em dias de jogo, gente até de outros estados vinham prestigiar o time local, com direito a apresentação de bandas musicais e tudo mais. O campo era cercado apenas por balaústre e autoridades como prefeitos, juízes e deputados se sentavam no chão mesmo para assistir ao espetáculo esportivo.
Em Marília, aconteceu um dos maiores shows políticos do país em 1960, com o comício do “Varre, varre, vassourinha”, do candidato a presidência da República, Jânio Quadros. O evento aconteceu na avenida Sampaio Vidal na frente do Cine Marília (Banco Santander) e animava a imensa multidão com muitas vassouras caracterizadas com a figura de Jânio. “Era incrível quando ele aparecia com o seu terno preto, óculos e bigode. As pessoas ficavam hipnotizadas. Jânio era exibicionista, dramático, demagogo e ele usava a vassoura como o símbolo de sua campanha prometendo varrer toda a sujeira da administração pública. Ele comia pão com mortadela no palanque (isso quando não pedia metade do sanduíche de algum trabalhador ali presente)”, comenta a professora.
Depois de eleito, Jânio ficou famoso por algumas frases como: “Bebo porque líquido é. Se sólido fosse, comê-lo-ía!” (dito a um repórter que o criticava pelo fato de beber muito). A outra frase foi “Fí-lo porque qui-lo !” (mencionada quando alguém questionava as atitudes do presidente)”.
No início dos anos 70, a indústria começa a não depender tanto da produção agrícola e a cidade passa a ter grandes crescimentos anuais, com verdadeiras potências no ramo alimentício e metalúrgico até os dias de hoje.
Entre os marilienses que se eternizaram, estão o nadador Tetsuo Okamoto que foi o primeiro atleta brasileiro a receber uma medalha Olímpica, no ano de 1952. Também o narrador esportivo Osmar Santos, o fotógrafo Sebastião Leme, que criou a fotografia de 360º, o atual presidente do Bradesco, Luis Carlos Trabucco. Sérgio Ricardo (aquele que quebrou o violão num dos Festivais de Música Nacionais) se destacou na música, na composição e interpretação . Walcir Carrasco, que é um dos maiores escritores de novelas.