quarta-feira, 3 de março de 2010

Lar de Meninas Amélie Boudet

Amor e oportunidade transformam meninas carentes em vencedoras

Relatos de ex-moradoras de abrigo mostram que a solidariedade somada aos valores morais podem formar pessoas vitoriosas

Por Alexandre Lourenção

Para quem achava que os abrigos de menores eram lugares de repressão às crianças e adolescentes problemáticas, está enganado. O bom exemplo de meninas que tiveram uma boa instrução, carinho e determinação mostram que é possível “dar a volta por cima”. A estudante Natália de Lima é um dos exemplos disto. Ela conta que foi encaminhada ao Lar quando tinha dez anos de idade porque os pais não tinham condições financeiras de sustentá-la. “Aqui no Amélie Boudet eu tive amparo, atenção, muito carinho e tudo o que uma criança pode ter”. No abrigo, a menina fez vários cursos, se tornou menor aprendiz e hoje trabalha num grande colégio particular da cidade. Natália está concluindo a faculdade de Recursos Humanos e quer iniciar outra no ano que vem. “Só tenho a agradecer à Deus por ter colocado o tio Nelson e a tia Fátima na minha vida. Tudo o que sou hoje eu devo à eles. Eles foram os meus pais de coração...”, comenta a estudante referindo-se ao presidente da entidade, Nelson Motta e sua esposa, Maria de Fátima Ferraz Motta, que gerencia o abrigo.
Uma outra história interessante é o de Patrícia Pires, que também é ex-moradora do Lar. Ela chegou ao abrigo com apenas três anos de idade. Hoje, aos 22 anos, Patrícia trabalha na contabilidade de uma indústria de alimentos e está cursando a faculdade de Ciências Contábeis. Ela conta que durante os 15 anos que morou na entidade, aprendeu Informática, Yoga, Teatro, Música, Dança, Canto, Artes plásticas e, principalmente, a batalhar para ser alguém na vida, sempre respeitando o próximo. “Com a ajuda da equipe do Amélie Boudet, eu encontrei o caminho do Bem. Quero poder transmitir todos os valores que aprendi no Lar aos meus filhos e espero que eles passem a diante”, conclui Patrícia.
Entre o bom trabalho dos voluntários, destaca-se o da regente de Coral, Cínara Nascimento e da professora de música, Cris Almeida, que desenvolvem um projeto social no Lar há seis anos.
Elas disseram que ver a evolução das meninas no palco, não tem preço. “Eu não sabia cantar nada e hoje eu canto ópera. Se eu consegui, elas também podem. Basta querer chegar lá”, disse a professora Cris.
A regente Cínara Nascimento explicou que é preciso ter muita disciplina num coral porque a cobrança é grande. As meninas aprendem a cantar em Latim, Espanhol, Inglês, Italiano, Francês e em Português, é claro.
Cinara lembra com grande entusiasmo, de uma apresentação musical chamada “Vozes de Natal” que ocorreu no Parque Vitória Régia, em Bauru. Era final do ano de 2004 e naquela noite dois membros do Coral Amélie Boudet estavam na platéia vestidos de mendigos. Durante a execução da música “Noite Feliz” (de Paulo Tatit) pelas meninas do Lar, os personagens saíram do meio do povo e foram, cantando, se unir aos integrantes do coral no palco. A regente disse que o público ficou impressionado com o que havia acontecido e, no final da apresentação, o Coral de Meninas Amélie Boudet foi aplaudido de pé, por um longo tempo, em meio a muita emoção...”.
Em 1996, o contador Nelson Motta foi convidado a fazer parte da diretoria do Amélie Boudet, onde se tornou presidente no ano de 2001. Ele lembra que no começo, não sabia direito como agir nem o que falar diante daquelas crianças tão carentes de pai e mãe. Além disso, Nelson e a esposa Fátima haviam perdido uma filha recentemente e estavam abalados emocionalmente. “Foi aí que passamos a ouvir a voz do coração e decidimos nos dedicar de corpo e alma àquelas meninas. Procuramos superar nossa dor preenchendo os espaços vagos na vida delas com muito amor. Hoje, nossos laços familiares são tão fortes que, quando uma delas vai embora, ficamos meio perdidos... Mas a vida é assim...”, relata emocionado o presidente do abrigo. Segundo Motta, um motivo de grande preocupação é quando algumas delas voltam para as famílias, pois alguns pais são usuários de drogas ou estão na prostituição e isto pode colocar em risco todo o trabalho desenvolvido com as meninas no Lar. Ele acredita que o ideal seria que alguma instituição pública ou privada, fizesse o acompanhamento destas famílias para preservar a vida das crianças. “É necessário que a sociedade colabore com visitas, materiais de construção (mesmo usados) e que as empresas dêem oportunidade à elas de se tornarem alguém na vida. Caso contrário, poderão se perder na criminalidade”.
O Juíz da Vara da Infância e Juventude, dr. Henrique Berlofa Villaverde, que atendeu a reportagem, explicou que as crianças são encaminhadas aos abrigos (pelo Conselho Tutelar) quando a família não possui estrutura adequada na formação social desses jovens. Estas entidades, segundo o juiz, devem oferecer psicólogos, assistentes sociais, atendimento médico e odontológico, alimentação adequada, boa educação e cuidados especiais, nos casos de dependência química. Tudo para possibilitar a inclusão social dos menores à sociedade. Villaverde esclarece que os abrigos para crianças e adolescentes não visam punir os jovens e sim, transformá-los em pessoas dignas. “Os menores precisam de apoio e é interessante que a sociedade visite os lares em datas especiais e se doem um pouco mais”. O juiz faz uma ressalva em relação aos menores que estão nas ruas pedindo esmolas. Ele pede para que as pessoas, ao invés de dar dinheiro, que liguem ou encaminhem estes casos para o Conselho Tutelar, pelo telefone (14) 3413-3877.





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