quarta-feira, 3 de março de 2010

Cacam - Especial Dia das Crianças

À espera de um lar

Crianças de abrigo querem família como presente
Mais do que brinquedos, menores carentes sonham com a harmonia do ambiente familiar

Texto e foto: Alexandre Lourenção

Para a maioria das crianças e adolescentes que moram no Centro de Apoio a Criança e Adolescente de Marília, o Cacam, o Dia das Crianças é uma data onde elas gostariam de ter algo muito melhor do que brincar e ganhar presentes. Elas queriam ganhar uma família e serem felizes, independentemente dos conflitos de personalidade entre os familiares. Ter uma vida com fortes laços afetivos é tudo o que eles gostariam de receber, conta Maria Aparecida da Silva Santos, que é auxiliar de desenvolvimento escolar no abrigo há quase 12 anos. Maria lembra que já viu muitos casos tristes de abusos com crianças. Um dos exemplos mais marcantes para ela, foi o de uma menina de 9 anos que sofria abuso sexual do próprio pai enquanto a mãe saía para trabalhar. Após denúncia, o homem foi preso e a menina voltou a morar com a mãe, depois de cinco meses abrigada no Cacam. Maria também relata outro caso que a marcou profundamente, quando um bebê de apenas 11 meses chegou no abrigo por maus tratos e abandono. Não bastasse isso, a recém-nascida tinha uma dificuldade para defecar e passou por uma delicada cirurgia na época. Dias atrás, Maria disse emocionada, que se encontrou, com a menina, por acaso na rua. Hoje, ela está com 5 anos e passa muito bem, ao lado da família que a adotou e recebe muito carinho e amor de todos.
A auxiliar conta ainda que, de uma maneira geral, as crianças sonham em fazer passeios, como ir ao cinema e comer pipoca, ir no restaurante e tomar sorvete na taça, entre outras coisas. “Tudo isso para elas é uma grande realização”. Maria desabafa que apesar de todo o carinho que as crianças e adolescentes recebem no Cacam, muitas pretendem voltar para a família e persistir numa possível reabilitação dos pais, mesmo correndo riscos de algum tipo de violência.
Uma das assistentes sociais da entidade, Daiane Crott de Matos, disse que quando as crianças ou adolescentes chegam ao abrigo, elas já apresentam sérias perdas de valores morais e sentimentais, pois não tiveram condições adequadas de convivência com os pais, nem bons exemplos de laços familiares. “É um trabalho difícil porque nossa equipe tem que reestruturar estas crianças e oferecer a elas muito carinho, afeto e atenção, durante o período que ficam no Cacam e depois, tentar inseri-las novamente na família e na sociedade”. Para Daiane, outro fator que acarreta problemas no relacionamento entre as crianças e adolescentes com as famílias mau estruturadas é a presença das drogas e do álcool, pois isto gera um aumento da violência nestes lares. A assistente social chama a atenção daqueles pais que batem nos filhos achando que estão educando. “O correto é dar atenção, acolhimento, carinho e a compreensão das atitudes. Elas querem é viver o presente e serem amadas e respeitadas como crianças”, finaliza Daiane.
Segundo a psicóloga que faz o acompanhamento dos jovens no Cacam, Miriam De Mayo Lopes, o intuito dos profissionais do abrigo é conter a agressividade e amenizar o sofrimento dos traumas contidos nas crianças e adolescentes que chegam na entidade. “Se eles não tiverem uma orientação exemplar hoje, muitos podem apresentar sérios desvios de conduta e serem atraídos para uma vida ligada a criminalidade e violência. E isso pode acontecer simplesmente por não conhecerem o lado do bem. É o que se chama de realidade distorcida”, explica a psicóloga.
O Cacam é uma entidade social que abriga 37 crianças e adolescentes de Marília em situação de risco social e pessoal. São crianças de ambos os sexos com faixa etária de 0 a 17 anos e onze meses (exceto infratores) vítimas das várias formas de violência física, sexual, exploração de trabalho, negligência e abandono ou de qualquer risco à sua integridade, sem distinção quanto à cor, raça, condição social, credo político ou religioso. Elas são encaminhadas ao abrigo mediante o Conselho Tutelar e o Poder Judiciário por um período de 45 dias ou mais de acordo com o processo judicial, oriundas de famílias de nível econômico e cultural baixos além de apresentar conflitos no convívio familiar.
O Cacam existe há 18 anos e é administrado há 14 pelo Rotary Marília de Dirceu. O abrigo proporciona aos jovens alimentação adequada, assistência integral, segurança, educação e reforço escolar, trabalhos manuais, projetos pedagógicos, orientações de higiene pessoal e várias atividades recreativas e educacionais. O Centro oferece também atendimento médico (Unimed), hospitalar, ambulatorial, odontológico (Uniodonto), psicológico, psiquiátrico, além de técnicos em enfermagem, assistentes sociais, monitoras, vigias, educadoras e cozinheiras e serviços gerais que atuam no local. Tudo para que os abrigados tenham o resgate da cidadania e um desenvolvimento afetivo, intelectual, físico e cultural.
Um dos projetos implantados no Cacam é o das “Famílias de Apoio”, que cadastradas, tiveram permissão para estar alguns dias com as crianças e adolescentes em seus lares e mostrar aos jovens o que existe dentro dos laços familiares.
Outro projeto é o “Natal em Família”, no qual o jovem passa o período das festas de final de ano com as famílias referidas acima, enquanto a entidade passa por uma reestruturação geral. Neste período, as crianças continuam sendo assistidas à distância.
A entidade se mantém com uma verba do Governo Federal que é repassada a Prefeitura Municipal e Secretaria do Bem Estar Social que encaminha o dinheiro para o Cacam. A outra parte dos recursos é através de parceiros como o supermercado Tauste e o próprio Rotary Marília de Dirceu. A ajuda de voluntários e colaboradores é de extrema importância, como o Fundo Social, a Igreja São Bento, a Afresp (Associação dos Agentes Fiscais de Renda do Estado de São Paulo) que sempre dão apoio financeiro ou na arrecadação de mantimentos para a entidade.
Todo mês são realizadas atividades para arrecadar fundos para o Cacam, como bazares da pechincha, jantares e desfile de moda.
Para o atual presidente do Cacam, Hederaldo Benetti, a população também pode colaborar doando roupas, brinquedos, móveis ou até mesmo dinheiro (que muitas vezes serve para compra de remédios). “Estamos abertos para quem quiser visitar e conferir as instalações e o trabalho que é desenvolvido com as crianças e adolescentes. Toda a nossa contabilidade é divulgada na imprensa anualmente com os ganhos e gastos da instituição”, explica Benetti.
Informações: O endereço do Cacam é Rua Vidal de Negreiros, 367 – Bairro Palmital. O telefone; 3433-1645 e o site: www.rcmariliadedirceu.org.br

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