quarta-feira, 3 de março de 2010

Ação JM - Especial sobre os Deficientes

Portadores superam deficiência mas não o preconceito

Vencer as próprias limitações é só mais um desafio em relação ao descaso e a falta de oportunidade que sofrem os deficientes

Por Alexandre Lourenção

Os portadores de necessidades especiais de Marília tem questionado a algumas situações muito delicadas sofridas pela categoria na sociedade. Para alguns, a deficiência limita ou interrompe a busca pelos objetivos de vida. Para outros, é só mais um entre tantos desafios a serem vencidos. Um dos bons exemplos disto é de Marcelo Alexandre Barbosa, 33, que é paraplégico e não se deixou abater pela deficiência. Ele acreditou no próprio potencial e conseguiu, através dos estudos, se tornar um gestor administrativo. Barbosa trabalha no Univem como auxiliar administrativo, é graduado em administração e cursa MBA em Recursos Humanos. Segundo ele, as pessoas não devem se prender a fatores as impeçam de realizar os seus sonhos. “É preciso muita força de vontade para vencer”.
O gestor lamenta a falta de oportunidade de grande parte das empresas aos deficientes e garante, com muita convicção, que investir em pessoas qualificadas dá mais retorno para uma empresa do que fazer uma reforma de acessibilidade ao deficiente.
Um outro exemplo de luta é o de Ana Paula Medeiros, 30. Ela possui uma deficiência congênita chamada Osteogênese Imperfeita (Ossos de Vidro) e disse que sofreu várias fraturas ao longo de a infância. Um espirro ou um susto, por exemplo, poderia causar uma lesão. “Só consegui ser alfabetizada aos 9 anos de idade e em casa, por receio de me machucar no colégio em contato com outras crianças”. Na época da faculdade, Ana relata que o maior obstáculo enfrentado foi a falta de transporte com adaptação ao deficiente na cidade. Com a ajuda da ADEF (Associação dos Deficientes Físicos de Marilia) ela conseguiu um táxi para ir e voltar da faculdade durante um ano. Após concluir o curso de Ciências da Computação, a bacharel passou num concurso público municipal e há quase dois anos trabalha numa escola infantil. Ana ressalta que um dos maiores incentivos para vencer suas limitações, foi a convivência com um grupo de jovens da paróquia Santo Antonio, lugar onde fez eternos amigos e ela considera como segunda família.
Quanto as dificuldades dos deficientes, ela cita o problema com o manuseio dos caixas eletrônicos dos bancos (por serem desproporcionais aos deficientes) e também a questão das autoescolas em Marilia. “No ano passado o veículo vinha de Bauru e era possível tirar a carteira de habilitação. Pagávamos caro por isso mas agora não temos mais esta opção. Se quisermos ter a carteira, temos que ir até lá (em Bauru). E quem trabalha aqui, como fica?”, desabafa.
Para o auxiliar administrativo, Thiago Cavalcanti Martins, 24, que é portador de visão subnormal (com apenas 20% e sem efeito de correção cirúrgica ou de lentes), grande parte dos deficientes sofrem de complexo de inferioridade. Ele disse que trabalhou numa agência bancária e que estava em crescente adaptação ao sistema operacional quando foi demitido por falta de produtividade. “Fiquei triste porque eu estava superando as minhas limitações quando veio a dispensa. É complicado um deficiente ter a mesma cobrança e pressão que um trabalhador normal...”
Martins comenta que depois deste constrangimento, chegou a tentar se aposentar por invalidez, tamanha a frustração.
O jovem acredita que a sociedade está vivendo num intenso ritmo de competição e que há uma grande falta de afetividade e de respeito entre as pessoas. “Penso que é necessário resgatar os valores humanos para se viver de uma forma mais justa. Aprendi que através da fé, tudo é possível. E quando se tem determinação, fica mais fácil chegar lá”. Hoje, ele trabalha em uma universidade e também numa grande rede farmacêutica onde recebe incentivo motivacional e tem plano de carreira. “Agora, pretendo continuar com os estudos, quero me casar e sei que vou marcar a história do meu trabalho, da minha família e da minha cidade...”, conclui entusiasmado.
Segundo o atual balanço do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Brasil, o número de portadores de algum tipo de deficiência, seja ela física, visual, auditiva, múltipla, surdocegueira ou intelectual, chega a 14,5% da população do País. Isso representa um total de 30 milhões de cidadãos que convivem com preconceitos e seus direitos reduzidos.

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